9Todo novembro, mês da Consciência Negra, vimos o debate sobre racismo se intensificar. E sim,  precisamosfalar de racismo,mas precisamos falar sobre racismo todos os meses do ano. Mais ainda, precisamos falar de racismo na infância todos os meses do ano e suas consequências na vida das crianças negras. Falar sobre racismo dói, mas precisamos falar!

A campanha “Por Uma InfânciaSemRacismo” realizadapelo UNICEF em 2010 para alertarsobre o impacto do racismo na vida de crianças e adolescentes trouxe alguns dados coletados pelo IBGE e mostra que 54,5% das crianças do Brasil são negras ou indígenas. A pobreza atinge 56% das crianças negras do país. Uma criança negra tem 70% mais risco de ser pobre do que uma criança branca.  Uma criança negra entre 7 e 14 anos tem 30% mais chance de estar fora da escola do queuma criança branca na mesma faixa etária. Esses dados nos ajudam a compreender a desigualdade vivida por crianças negras no Brasil e revela o racismo estrutural que a população negras ofre desde a infância.

Se você conversar com um grupo de crianças negras de qualquer classe social em qualquer espaço, seja ele público ou privado, logo surgem relatos de situações de racismo que crianças negras passam no cotidiano. “Tia, ele me chamou de macaca”, “O menino na minha sala disse que meu cabelo parece uma casa de cupim”, “Dizem que meu nariz é de porrote”, “Tia, porque todo negro fede?” “Já me chamaram de cabelo de bombril”*. Essas foram frases ouvidas durante uma oficina sobre identidade racial com crianças de 9 a 11 anosonde 95% eramnegras. Crimes disfarçados de brincadeiras ou denominados como bullying.  E apesar de existir uma linha quase invisível que separa o bullying do racismo, não podem os confundi-los uma vez que racismo é crime e uma construção estrutural da sociedade que vem prejudicando todo um grupo populacional ao longo da história.

O racismo quando vivenciado na infância traz consequências

muitas vezes irreversíveis para a saúde mental das crianças. Atitudes que acontecem em todos os espaços de convívio, mas principalmente no ambiente escolar, que de veriaser o espaço da aprendizagem, da troca, de respeito à diversidade e de resgate e valorização da própria história.

A negação, desqualificação e invisibilização dos traços pertencentes à raça negra levaa um comportamento de sofrimento, insatisfação e rejeição da criança negra com o próprio corpo que pode ser expressada pela anulação dos seus traços de pertencimento racial. Não é difícil observar que a maioria dos meninos negros mantém seus cabelos bem curtos e as meninas muitas vezes os mantém presos ou alisados desdemuitopequenas. Isso porque o cabelo  é um traço identitário muito forte e o principal elemento de aceitação estética. Apesar de a ditadura do cabeloliso e aceitação do cabelo crespo vir mudando mais recentemente.

O não conhecimento de sua história, de sua origem e a ausência de representativida de negra no cotidiano provoca um distanciamento e uma negação à todos os aspectos da cultura e história afro brasileira. Esse desconhecimento e distanciamento impede que as crianças negras tenham poucas perspectiva e possibilidade de sonhar em ocupar espaços de poder e destaque.

Depressão, baixa auto estima, ansiedade, sentimento de inferioridade e insegurança são alguns dos efeitos psíquicos do racismo causada pela necessidade de se sentirem aceitas nos grupos que convivem.

O racismo sofrido na infância precisa ser entendido como maus-tratos e está amparado pela Lei 13.046/14. Seu enfrentamento é obrigação do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e seus operadores precisam estar preparados e atentos para agir antecipadamente e identificarcasos de discriminação racial sofridos por crianças, minimizando seus efeitos.

Por outro lado, as instituições de ensino precisam garantir a aplicação da Lei 10.639/2003 que determina o ensino da história e cultura afro brasileira no currículo escolar, visibilizando a riqueza da diversidade brasileira, a contribuição histórica de cada povo na construção da sociedade e contribuindo positivamente para a identidade das crianças negras.

Alertar sobre os danos causa do pelo racismo na infância é a possibilidade de quecada criança negra possa viver em uma sociedade mais justa, longe desseti pode  violência e tenha um desenvolvimento sadio.

* Algumas falas de crianças durante oficina sobre identidade racial onde 95% das crianças são negras.

Referências:

https://www.geledes.org.br/o-que-cabelo-tem-ver-com-racismo/
https://mundonegro.inf.br/precisamos-falar-sobre-diferenca-entre-bullying-e-racismo-pelo-bem-dos-jovens-negros/
https://www.unicef.org/brazil/media/1731/file/O_impacto_do_racismo_na_infancia.pdf

Vamos falar sobre racismo na infância.  Jornal do GT Racismo do MPPE – edição n°37, 2015.

Por Ilka Guedes – Educadora 

Novembro 2019