– Maio 2018 –

Uma entrevista do Grupo AdoleScER com o coordenador do projeto Tarciso Lucena e a educadora social Fernanda Felipe.

O Grupo AdoleScER lançou no último ano de 2017 um projeto que tem características inovadoras para nossa região, chamado de “Observatório Comunitário da Violência”. Trata-se de um projeto que visou traduzir o desafio de formar adolescentes e jovens como cidadãos políticos na contribuição de reduzir os índices de violência em comunidades do Recife. O Grupo AdoleScER, como é de seu intuito, demonstra seu interesse no segmento de capacitação da autonomia pessoal e social na construção de um Observatório que apoie a consolidação e defesa de direitos referentes à juventude e de comunidades mais pacíficas. Nesta entrevista, participaram o coordenador do projeto Tarciso Lucena e a educadora social Fernanda Felipe.

 

Grupo AdoleScER: O que é o Observatório Comunitário de Violência?

Tarciso:  Buscamos com este projeto registrar e observar os aspectos de violência com base na coleta de dados que serão sistematizadas em instrumentos para a implementação de um dispositivo chamado Observatório Comunitário de Violências. A perspectiva de atuação do Grupo AdoleScER é de articular diversos órgãos, escolas e seus professores, coletivos, instituições e atores sociais, na perspectiva de monitorar os índices de violências e elaborar propostas de intervenções de base comunitária, como também, apresentar ao poder público nossa experiência enquanto instituição que dialoga e trabalha junto às comunidades.

 

Grupo AdoleScER: Como é formado o Observatório Comunitário de Violência? Como ele tem atuado diretamente no âmbito comunitário?

Tarciso:  Para desenvolver essa proposta, são formados 40 adolescentes líderes de opinião, de 12 à 17 anos desde o ano de 2017. Pretendemos alcançar um trabalho de monitoramento das violências nas comunidades de Caranguejo/Tabaiares (Ilha do Retiro) e Roda de Fogo (Torrões), duas regiões que tem como características comuns o abandono da efetividade do Poder Público e pelos altos índices de criminalidades e violências. Para tal, nosso objetivo será reduzir e mapear esses índices, sendo voltados para crianças, adolescentes e jovens, acionando principalmente as políticas pública do Brasil, proporcionando comunidades mais pacificas, com atores de maior entendimento como reivindicar seus direitos, sendo autônomos na decisão da sua vida.

Fernanda: O projeto passa a atuar dentro desse contexto, fortalecido pela proposta do Observatório Comunitário, no intuito de reduzir os índices de violências através de organização popular. Para além disso, enxerga-se a possibilidade de se diminuir o abismo social na construção de ações que visem alcançar o Poder Público para o cumprimento de seu dever, isso tem ampla relação com o empoderamento da juventude no intuito de saber reivindicar seus direitos. Nesse caso, temos o papel de desenvolver, enquanto educadores sociais a possibilidade de fazer com que adolescentes e jovens se tornem mais críticos quanto à cultura de violência que impera nessas comunidades.

 

 

Grupo AdoleScER: De onde partiu essa ideia de criar um Observatório Comunitário de Violência nas comunidades?

Tarciso: A ideia parte do próprio contexto de violência que existem nas comunidades, principalmente contra juventude. Entretanto, temos como grande dificuldade a falta de reconhecimento de que é preciso intervir sobre um movimento que já se parece cultural, uma cultura de violência. Além do mais, temos a sistematização de dados de CVLI’s (Crimes Violentos Letais e Intencionais), que diz respeito ao quantitativo de pessoas assassinadas no Estado. Nosso interesse é mais preventivo, que diz respeito ao que acontece de violências antes dos CVLI’s.

Sabemos no AdoleScER que o Estado de Pernambuco tem tido índices alarmantes de violências vivenciadas no dia a dia de sua população. A violência tem sido identificada como uma das maiores preocupações de seus habitantes. Não à toa que a sensação de insegurança se espalha amplamente e os dados apontaram como um dos estados mais violentos, com altas taxas de homicídios (5.427 homicídios em 2017 – média de 15 assassinatos por dia, o maior índice registrado no Estado) a juventude representa, em uma série histórica no último senso publicado pelo mapa da violência do Brasil, em 2014, cerca de 50% do número total de mortos com idade até 29 anos. A partir dos índices de homicídios de adolescentes (IHA), de faixa etária de 12 à 18 anos, estima-se que entre 2013 e 2019 o estado chegue a um número de 4 adolescentes assassinados a cada um mil adolescentes de mesma faixa etária.

Fernanda:  Se pensarmos no contexto que a vida comunitária oferta aos adolescentes e jovens, em geral, são de problemas estruturais relacionados à baixa renda, baixa escolaridade, dificuldade de acesso ao mercado formal de trabalho, dificuldade de acesso à saúde e outros serviços da atenção básica. O que consideramos ser um incentivo à cultura de violência. Fica difícil, por vezes, trabalhar de forma pedagógica uma proposta de reinvindicação de seus direitos sociais básicos, se impera o medo de uma cultura de violência. Vejo jovens se envolvendo em situações perigosas para sua própria vida, por exemplo, mas, como é possível que ele consiga ter uma atividade recreativa e educativa na comunidade de Caranguejo/Tabaiares se lá não existe uma praça ou qualquer outra oferta de atividades profissionalizantes, recreativas e/ou educativas na região?

 

Grupo AdoleScER: O que se pretende fazer com os dados coletados e como esses dados podem chegar ao conhecimento do Poder Público?

Tarciso: A sistematização dos dados já está sendo realizada e pretende garantir permanentemente a articulação da população para que o Observatório Comunitário continue coletando dados e propondo ações a comunidade, criando estratégias para a redução da violência em diálogo com o Poder Público a fim de criar políticas de intervenções que melhorem a qualidade de vida dos bairros.

Todos os produtos e serviços prestados pelo o Grupo AdoleScER foram criados para estarem ao alcance dos grupos de beneficiários. Há uma sistemática de formação pedagógica, com temáticas de interesse para o observatório, aplicadas semanalmente em cada comunidade.

Para alcançar o Poder Público o projeto visa propor parcerias, agregar redes de proteção e combate às violações dos direitos das crianças e adolescentes, além de elaborar outros projetos, a partir da demanda enxergada nos dados coletados, que beneficiem as pessoas e a comunidade.